Vasoespasmo cerebral
Vasoespasmo Cerebral: Definição e Fisiopatologia
O vasoespasmo cerebral refere-se ao estreitamento (constrição) tardio de artérias cerebrais de grande e médio calibre na base do cérebro, ocorrendo tipicamente após uma hemorragia subaracnoidea (HSA) aneurismática [1, 2]. Embora o vasoespasmo angiográfico (estreitamento visível em exames de imagem) seja comum, a maior preocupação é o vasoespasmo sintomático, que leva à redução do fluxo sanguíneo e pode causar Isquemia Cerebral Tardia (DCI, da sigla em inglês) – déficits neurológicos ou infarto cerebral que surgem dias após o sangramento inicial [1, 2].
A DCI devido ao vasoespasmo é uma importante causa de morbidade e mortalidade após a HSA, afetando aproximadamente 30% dos pacientes que sobrevivem à ruptura inicial do aneurisma [1, 2]. O início do vasoespasmo ocorre tipicamente entre o dia 4 e o dia 14 após a HSA, com pico em torno do 7º ao 10º dia [1, 2]. Os pacientes podem inicialmente apresentar melhora ou estabilização após a ruptura do aneurisma, para depois desenvolver déficits neurológicos novos ou em agravamento durante esta janela crítica [1].
Fisiopatologia e Epidemiologia
A fisiopatologia exata do vasoespasmo é complexa e não totalmente compreendida, mas está fortemente ligada à presença e degradação de sangue coagulado no espaço subaracnoideo ao redor das artérias [1, 2]. As hipóteses envolvem [1, 2]:
- Resposta Inflamatória: Produtos da degradação da hemoglobina (como a oxi-hemoglobina e bilirrubina) liberados do coágulo desencadeiam cascatas inflamatórias e estresse oxidativo, levando à contração do músculo liso e disfunção endotelial nas paredes arteriais.
- Substâncias Vasoativas: Várias substâncias implicadas incluem endotelinas, serotonina, prostaglandinas e catecolaminas, embora seus papéis exatos e a natureza prolongada do vasoespasmo continuem em debate.
- Mudanças Estruturais: O espasmo prolongado também pode envolver alterações estruturais na parede arterial, contribuindo para o estreitamento sustentado.
As evidências clínicas apoiam fortemente a correlação entre a quantidade e a localização do sangue subaracnoideo nos primeiros exames de imagem cerebral (TC ou RM) e o risco, severidade e localização do vasoespasmo subsequente [1, 2, 3]. Hemorragias de grande volume, particularmente coágulos espessos nas cisternas e fissuras basais (frequentemente avaliados utilizando as escalas de Fisher ou Fisher modificada), são indicativas de maior risco de vasoespasmo [3]. As tomografias computadorizadas realizadas entre 24 e 96 horas pós-HSA são consideradas as mais preditivas para avaliar a carga do coágulo relacionada ao risco de vasoespasmo, especialmente para a circulação anterior (artérias cerebrais anterior e média) [1]. Prever o vasoespasmo da circulação posterior baseando-se na carga de coágulo da TC costuma ser mais difícil devido a limitações de imagem na fossa posterior [1].
Acredita-se que a interação prolongada entre o coágulo de sangue e a artéria circundante seja fundamental, potencialmente prejudicando a função normal do vaso e a troca de nutrientes (já que as artérias intracranianas carecem de vasa vasorum extensos e dependem em parte do LCR para nutrição) [1].
| Característica | Detalhes | Relevância Clínica |
|---|---|---|
| Pico de Ocorrência | Dias 7–10 pós-HSA | Janela de maior risco para DCI |
| Artérias Mais Afetadas | ACM, ACI, ACA (circulação anterior) | Explica a frequência de hemiparesia/afasia |
| Prevenção Primária | Nimodipino 60 mg a cada 4h × 21 dias | Melhora o desfecho (não o diâmetro do vaso) |
| Ferramentas de Monitoramento | DTC (velocidades diárias), ATC/ASD | Detecção precoce antes dos sintomas |
| Terapia de Resgate | Hipertensão induzida, vasodilatadores IA, angioplastia | Para espasmo sintomático refratário |
Apresentação Clínica: Vasoespasmo Sintomático e DCI
O diagnóstico clínico de vasoespasmo sintomático, que muitas vezes leva à DCI, é feito quando um paciente desenvolve novos déficits neurológicos focais, um declínio na consciência, ou ambos, tipicamente entre os dias 4 e 14 pós-HSA, após outras causas (como ressangramento, hidrocefalia, convulsões, distúrbios metabólicos, infecção) terem sido razoavelmente excluídas [1, 2].
Os sintomas específicos dependem do território arterial afetado pela redução do fluxo sanguíneo [1]:
- Território da Artéria Cerebral Média (ACM): Hemiparesia contralateral (fraqueza, frequentemente face/braço > perna), perda sensorial contralateral, afasia (se for o hemisfério dominante), negligência ou anosognosia (se hemisfério não dominante).
- Território da Artéria Cerebral Anterior (ACA): Fraqueza perna > braço contralateral/perda sensorial, abulia (falta de motivação, respostas lentas, redução da fala), incontinência.
- Território da Artéria Cerebral Posterior (ACP): Hemianopsia homônima contralateral (defeito no campo visual), comprometimento da memória, confusão.
- Território Vertebrobasilar: Alteração da consciência, paralisia de nervos cranianos, ataxia, déficits motores bilaterais (apresentação menos comum para DCI induzida por vasoespasmo em comparação com a circulação anterior).
É importante notar que um vasoespasmo significativo detectado na imagem (vasoespasmo angiográfico) nem sempre causa sintomas clínicos, provavelmente devido à adequada circulação colateral compensando a redução do fluxo no vaso espástico principal [1]. O início dos sintomas pode ser gradual, ao longo de horas a dias, ou ocorrer de forma mais abrupta [1].
Vasoespasmo grave e disseminado, particularmente envolvendo artérias maiores como a ACM, pode levar a grandes infartos territoriais [1]. O edema cerebral resultante pode aumentar ainda mais a pressão intracraniana (PIC), possivelmente causando herniação e morte [1]. Prever quais pacientes com grandes cargas de coágulos desenvolverão um edema devastador continua a ser um desafio, mas o envolvimento de múltiplos territórios vasculares (ex.: ACA e ACM) aumenta o risco, pois a oferta colateral fica comprometida [1].
Vasoespasmo Cerebral: Prevenção e Tratamento
O manejo tem como foco a prevenção, o monitoramento e o tratamento do vasoespasmo sintomático / DCI [1, 2].
Prevenção:
- Nimodipino: Este bloqueador do canal de cálcio é o único medicamento comprovado para melhorar os desfechos neurológicos após HSA, embora não previna ou reverta consistentemente o vasoespasmo angiográfico [1, 2]. Acredita-se que atue potencialmente através de neuroproteção ou melhoria do fluxo microcirculatório, em vez de atuar exclusivamente na dilatação de grandes vasos [1]. É prática padrão administrar nimodipino oral (ex.: 60 mg a cada 4 horas) por 21 dias a todos os pacientes com HSA aneurismática [2].
- Manutenção da Euvolemia: Evitar a desidratação e manter o equilíbrio hídrico normal é crucial [2].
- Tratamento Precoce do Aneurisma: Tratar rapidamente o aneurisma roto (por clipagem ou embolização) permite um manejo mais agressivo do vasoespasmo, caso ocorra, sem o alto risco de ressangramento associado à hipertensão induzida [1, 2].
Monitoramento:
- Avaliação Neurológica Clínica: Checagens frequentes são essenciais para detectar mudanças sutis indicando o início de DCI [1, 2].
- Ultrassonografia Doppler Transcraniano (DTC): Ferramenta não invasiva à beira do leito usada de forma seriada para monitorar as velocidades do fluxo sanguíneo nas principais artérias intracranianas [1, 2]. Velocidades consideravelmente maiores podem indicar o desenvolvimento de vasoespasmo, muitas vezes antes dos sintomas aparecerem, exigindo maior vigilância ou investigação mais profunda [1].
- Angiografia por TC (ATC) / Perfusão por TC (PTC): Pode visualizar o estreitamento dos vasos (ATC) e avaliar os déficits do fluxo / volume sanguíneo cerebral (PTC), ajudando a confirmar o vasoespasmo e a isquemia quando surge a suspeita clínica [2, 4].
- Angiografia por Subtração Digital (ASD): Continua a ser o padrão-ouro para visualizar a severidade e distribuição do vasoespasmo, frequentemente realizada se houver deterioração clínica apesar do manejo médico ou se for contemplado um tratamento endovascular [1, 4].
Diagnóstico Diferencial da Deterioração Neurológica Tardia Pós-HSA [1, 2]
| Condição | Início Típico pós-HSA | Características Principais / Pontos Distintivos | Investigações / Achados Típicos |
|---|---|---|---|
| Isquemia Cerebral Tardia (DCI) por Vasoespasmo | Dias 4-14 (Pico 7-10) | Novo déficit focal (hemiparesia, afasia) ou declínio do nível de consciência. Freq. gradual/flutuante. Correlaciona-se com carga do coágulo. | TC de crânio exclui ressangramento/hidrocefalia. ATC/ASD confirma vasoespasmo. DTC mostra altas velocidades. Perfusão TC/RM mostra isquemia. |
| Ruptura de Aneurisma Recidivante | Maior risco nas primeiras 24h, permanece alto até o tratamento (primeiras ~2 semanas). | Declínio súbito e catastrófico da consciência, muitas vezes com forte agravamento da dor de cabeça, novos déficits, possível parada cardiopulmonar. | A repetição da TC mostra hemorragia nova ou aumentada (HSA, HIV, HIC). Angiografia de urgência necessária se não tratado. |
| Hidrocefalia (Aguda ou Crônica Comunicante) | Aguda: Primeiros dias. Crônica: De dias a semanas depois. | Aguda: Declínio da consciência. Crônica: Distúrbio da marcha, declínio cognitivo, tríade da incontinência (tipo HPN). | TC/RM mostra ventriculomegalia desproporcional à atrofia. A PL pode revelar pressão alta ou normal; resposta à drenagem de LCR apoia o diagnóstico (crônica). |
| Convulsões / Estado de Mal Epiléptico | Pode ocorrer a qualquer momento pós-HSA. | Atividade convulsiva clínica ou sinais sutis (estado não convulsivo). Confusão / déficits pós-ictais. | O EEG confirma a atividade convulsiva ou o estado pós-ictal. Exames de imagem excluem nova lesão estrutural. |
| Hiponatremia | Complicação comum (SIADH ou SPC), geralmente nas primeiras 2 semanas. | Estado mental alterado, letargia, convulsões (se grave). | Nível baixo de sódio sérico. Osmolalidade urinária/sérica ajuda a diferenciar SIADH de SPC. Imagem craniana normal. |
| Infecção Sistêmica / Sepse | Pode ocorrer a qualquer momento (ex., pneumonia, ITU). | Febbre, estado mental alterado, sinais da fonte de infecção. | Culturas positivas (sangue, urina, escarro). Marcadores inflamatórios elevados. Imagem craniana normalmente sem alterações. |
| Efeitos da Medicação (ex., Sedação) | Diminuição da consciência relacionada à administração ou acumulação de medicações sedativas/analgésicas. | Revisão do receituário. Resposta à redução da sedação ou agentes reversores (se aplicável). Imagens normais. |
Tratamento do Vasoespasmo Sintomático / DCI [1, 2]:
- Terapia Hemodinâmica (Hipertensão Induzida e Euvolemia): Este é o pilar do manejo médico assim que o vasoespasmo sintomático / DCI é diagnosticado (e após o aneurisma ter sido tratado). O objetivo é aumentar a pressão de perfusão cerebral (PPC) para vencer a resistência causada pelas artérias estreitadas. Isso normalmente envolve:
- Garantir hidratação adequada e pressão venosa central (manter a euvolemia).
- Induzir hipertensão utilizando agentes vasopressores (ex., norepinefrina, fenilefrina) para atingir metas específicas da pressão arterial média ou sistólica, orientado pela resposta neurológica e pelo monitoramento (PIC, PPC, se disponíveis).
- Requer monitoramento em unidade de terapia intensiva (UTI) do estado cardiovascular, balanço hídrico e condição neurológica.
- Terapia Endovascular: Utilizada para vasoespasmo sintomático clinicamente refratário, confirmado através de angiografia. Opções incluem:
- Infusão Intra-arterial de Vasodilatadores: Infusão direta de fármacos como nicardipino, verapamil ou milrinona nas artérias espásticas através de um cateter pode aliviar temporariamente o vasoespasmo. Freqüentemente exige tratamentos repetidos.
- Angioplastia Transluminal Percutânea (ATP): Dilatação mecânica focal dos segmentos proximais das artérias espásticas usando um cateter balão. Pode propiciar uma dilatação mais duradoura, mas carrega o risco de ruptura ou dissecção do vaso. Reservada para espasmos severos, acessíveis, que não respondem a outras terapias.
- Manejo do Edema Cerebral / Aumento da PIC: Caso o vasoespasmo leve a grandes infartos e edema significativo com aumento da PIC:
- Técnicas padrão de manejo da PIC: Elevação da cabeceira, terapia osmótica (manitol, salina hipertônica).
- Em casos severos: A hemicraniectomia descompressiva (remoção cirúrgica de parte do crânio) pode salvar a vida.
Apesar destas intervenções, o vasoespasmo cerebral e a DCI permanecem desafios significativos. A pesquisa contínua procura compreender melhor a fisiopatologia e desenvolver terapias direcionadas mais eficazes, potencialmente incluindo agentes anti-inflamatórios ou vasodilatadores inéditos, assim como estratégias para a remoção precoce do coágulo [1, 2].
Referências
- Ropper AH, Samuels MA, Klein JP, Prasad S. Adams and Victor's Principles of Neurology. 11th ed. McGraw Hill; 2019. Capítulo 34: Cerebrovascular Diseases (Seção sobre Vasoespasmo Cerebral e Isquemia Cerebral Tardia).
- Connolly ES Jr, Rabinstein AA, Carhuapoma JR, et al; American Heart Association Stroke Council; Council on Cardiovascular Radiology and Intervention; Council on Cardiovascular Nursing; Council on Cardiovascular Surgery and Anesthesia; Council on Clinical Cardiology. Guidelines for the management of aneurysmal subarachnoid hemorrhage: a guideline for healthcare professionals from the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2012 Jun;43(6):1711-37.
- Fisher CM, Kistler JP, Davis JM. Relation of cerebral vasospasm to subarachnoid hemorrhage visualized by computerized tomographic scanning. Neurosurgery. 1980 Jan;6(1):1-9. (Artigo original sobre a escala de Fisher).
- Osborn AG, Hedlund GL, Salzman KL. Osborn's Brain: Imaging, Pathology, and Anatomy. 2nd ed. Elsevier; 2017. Seção sobre Hemorragia Subaracnoidea e Vasoespasmo.
- Diringer MN, Bleck TP, Claude Hemphill J 3rd, et al; Neurocritical Care Society. Critical care management of patients following aneurysmal subarachnoid hemorrhage: recommendations from the Neurocritical Care Society's Multidisciplinary Consensus Conference. Neurocrit Care. 2011 Sep;15(2):211-40.
- Bahra A, Matharu MS, Buchem MA, et al. Antifibrinolytic treatment for aneurysmal subarachnoid haemorrhage. Cochrane Database Syst Rev. 2006 Oct 18;(4):CD001245. Review. Update in: Cochrane Database Syst Rev. 2013;8:CD001245.
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